Filosofia da consciência

Fernando Ramalho

Prefácio

    O presente site, de momento, oferece apenas o esboço inicial da teoria da consciência que aqui proponho. Trata‑se de uma formulação ainda embrionária, destinada a ser desenvolvida de forma substancial ao longo do processo de escrita. A versão final deverá expandir-se em extensão e profundidade, aproximando-se de uma ordem de magnitude cerca de dez vezes superior ao texto atualmente disponível, com o objetivo de articular uma ontologia completa da experiência consciente.

   A minha abordagem filosófica assenta em fundamentos neurobiológicos sólidos, particularmente na obra de António Damásio. A investigação de Damásio sobre o papel do corpo, da emoção e da homeostase na constituição do self fornece a base científica indispensável para a construção desta teoria. A sua descrição dos mecanismos afetivos que tornam possível a emergência da consciência estabelece o terreno empírico sobre o qual a minha reflexão se edifica.

   A minha contribuição situa-se, portanto, noutro plano: o da elaboração conceptual e ontológica. Se Damásio descreve os processos neurobiológicos que sustentam a vida mental, o meu objetivo é explicitar a estrutura fenomenológica e metafísica que esses processos tornam possível. A relação entre ambos os trabalhos é, assim, complementar: a neurociência oferece a matéria; a filosofia oferece a forma. Juntas, estas duas dimensões permitem uma compreensão mais abrangente e integrada da consciência.

     Este projeto encontra-se em desenvolvimento contínuo. O que aqui se apresenta deve ser lido como a fundação de uma teoria em expansão, cujo propósito é contribuir para o diálogo contemporâneo entre filosofia, neurociência e ciências cognitivas, e propor uma visão unificada da experiência consciente.

Introdução

  A evolução da consciência permitiu rapidamente o desenvolvimento de competências sociais. Com o surgimento da linguagem, o pensamento tornou-se extraordinariamente poderoso, e a própria consciência, que é continuamente moldada por esse pensamento, expandiu-se de forma decisiva

  Pensadores como Bernard Baars e Daniel Dennett contribuíram de modo significativo para a compreensão da consciência, mas atribuíram um peso excessivo à entrada sensorial. Parece não terem reconhecido que, na maior parte do tempo, não estamos focados no que chega do exterior, mas sim a operar sobre conteúdos da memória de longo prazo, a simular cenários e a imaginar futuros possíveis

  A mente funciona segundo o princípio do prazer; nada existe para além dele. Os qualia constituem a força motora da mente: sem qualia, não haveria critério para avaliar, escolher ou decidir. A mente não saberia atribuir valor às coisas. Por isso, não faz sentido tentar compreender a consciência sem estudar o pensamento, pois é o pensamento que continuamente atua sobre ela e a transforma.

  Quanto aos futuros robôs conscientes, importa notar que serão criados e não gerados, e isso altera tudo. A sua consciência será aquela que os humanos (ou outros robôs) decidirem que devem ter. É improvável que possuam uma psique semelhante à humana, que emergiu de um longo processo evolutivo. Terão, antes, uma consciência moldada às funções e necessidades para as quais forem concebidos.

A origem da consciência

  A consciência resultou de um processo evolutivo moldado pela seleção natural, processo que libertou o ser humano (e outros animais) das forças cegas da natureza e criou a sensação de livre-arbítrio. O livre-arbítrio, tal como o imaginamos, só se tornou possível com o advento da consciência: sem ela, seríamos movidos exclusivamente por forças naturais, como acontece com os objetos inanimados. A sofisticação e complexidade da consciência fazem-nos sentir que habitamos um mundo não determinista e que dispomos de liberdade de escolha, uma crença extremamente útil no quotidiano

  Desde muito cedo, a consciência parece ter adquirido funções sociais. Os humanos, sendo animais profundamente sociais e dependentes do grupo para sobreviver, desenvolveram uma consciência que inicialmente servia para adaptar o indivíduo ao ambiente físico, mas que rapidamente evoluiu para favorecer as relações sociais. Com o surgimento da linguagem, a consciência fortaleceu-se ainda mais: pensar e comunicar tornou-se incomparavelmente mais fácil, permitindo o aparecimento de uma consciência social altamente desenvolvida

  A evolução biológica da consciência ocorreu através da seleção natural: os indivíduos mais aptos sobrevivem e reproduzem-se com maior facilidade, enquanto os menos aptos têm menos probabilidades de deixar descendência. No caso humano, aqueles com melhores capacidades de relacionamento social tendem a reproduzir-se mais, reforçando ao longo das gerações os mecanismos cognitivos e afetivos que sustentam a vida em grupo

  Para nós, compreender este fenómeno é particularmente difícil: trata-se da própria consciência a tentar compreender-se a si mesma. Apesar dos avanços científicos, sobretudo na neurociência, o estudo filosófico da consciência continua indispensável. Ainda está longe o dia em que a filosofia da consciência se torne obsoleta e dê lugar apenas a uma ciência da consciência, dada a profundidade e complexidade do tema.

Principais abordagens da consciência

Conceito de emergência

   Emergência é o conceito de que certos fenómenos só se manifestam quando um sistema atinge um certo nível de complexidade, e que esses fenómenos não podem ser compreendidos, analisando e compreendendo as partes constituintes. O todo é diferente da soma das partes.

As duas principais teorias sobre emergência

Emergência forte

   A emergência forte defende que o que emerge possui propriedades próprias, irredutíveis às partes que lhe deram origem. O fenómeno emergente teria um estatuto ontológico distinto, quase como se surgisse “algo mais” para além da matéria. É, na prática, um dualismo envergonhado: não assume explicitamente uma segunda substância, mas acaba por sugerir uma realidade adicional, não física, que emerge da física.

Emergência fraca

   A emergência fraca afirma que o fenómeno emergente depende totalmente das partes que o constituem. Em princípio, poderia ser reduzido às suas bases físicas, mas na prática tal redução é inviável devido à complexidade. Nesta perspetiva, a consciência supervém das redes neurais do cérebro e, em última instância, reduz-se à física. É a abordagem mais compatível com a neurociência contemporânea e evita postular entidades ontológicas desnecessárias.

   Com o avanço da ciência, especialmente da neurociência, a crença em entidades não físicas foi perdendo força. Hoje, os pensadores mais credíveis veem a consciência como um fenómeno que emana das estruturas do cérebro. A consciência é matéria em funcionamento.

   Se Deus criasse uma cópia perfeita deste universo, uma réplica absoluta, onde nenhuma partícula estivesse deslocada, e a colocasse noutro espaço, tudo aconteceria de forma sincronizada nos dois universos. Se, num deles, a senhora Maria estivesse a tentar enfiar uma linha numa agulha, no outro universo existiria, no mesmo instante, uma senhora Maria a realizar exatamente o mesmo gesto. O físico determina o mental. Nada mais é necessário.

   Se conhecêssemos completamente as propriedades dos átomos de hidrogénio e oxigénio, poderíamos prever as propriedades da molécula de água. Não há mistério ontológico na água: tudo resulta da interação física dos seus constituintes.

   Um alienígena muito mais inteligente do que nós compreenderia a molécula de água apenas pelas propriedades dos seus átomos. Assim, a emergência não é uma propriedade da natureza, mas uma ferramenta epistemológica humana. Serve para simplificar a compreensão da complexidade, tornando o mundo acessível à nossa razão limitada.

   Com o avanço da neurociência, é provável que os filósofos adotem uma visão cada vez mais reducionista da consciência. A emergência não é uma entidade misteriosa; é uma fórmula matemática das partes, totalmente redutível a elas.

   O software compilado é emergente do código-fonte, mas pode ser descompilado. É um exemplo claro de reducionismo: do emergente à sua base. Para nós, contudo, analisar a molécula de água estudando todas as forças físicas entre os seus átomos seria demasiado complexo. As leis emergentes são, portanto, condições de possibilidade do conhecimento humano, não propriedades ontológicas da realidade.

   Um cão compreende muita coisa, mas tem uma razão limitada. O humano compreende muito mais, mas também tem limites. Um alienígena, com uma arquitetura cognitiva superior, poderia compreender conceitos que ultrapassam a nossa capacidade.

   Assim como o cão nunca compreenderá certos conceitos humanos, nós talvez nunca compreendamos certos conceitos alienígenas, não por falta de esforço, mas por limites estruturais da nossa mente.

   A inteligência humana está a tornar-se híbrida, mesclando-se com a inteligência artificial. As IAs começam a realizar operações cognitivas que a mente humana não consegue: encontrar padrões complexos, pensamentos que envolvam muitas variáveis em simultâneo sem as quais não seja possível chegar a uma conclusão. Memória muito maior com todo o conhecimento do mundo, rapidez de pensamento, etc.

   A emergência não está na natureza; está na forma como a mente humana organiza e simplifica a compreensão da natureza.

   A emergência é uma ferramenta conceptual criada por uma inteligência limitada para lidar com a complexidade do mundo físico. Não é uma propriedade do universo, é uma propriedade da nossa epistemologia.

Principais teorias da consciência

Bernard Baars

   Baars é conhecido pela sua Teoria do Espaço de Trabalho Global. Segundo esta teoria, a informação chega a uma espécie de teatro mental, onde a atenção funciona como um holofote que ilumina determinados conteúdos. Aquilo que é iluminado torna‑se consciente e é disponibilizado aos múltiplos processos inconscientes especializados, que executam as tarefas necessárias ao funcionamento da mente

  No entanto, Baars coloca o holofote sobretudo sobre os dados sensoriais e parece ignorar que passamos a maior parte do tempo a pensar nos conteúdos da memória, a projetar o futuro ou a construir cenários imaginários, verdadeiros “castelos no ar”. Apenas uma pequena parte do nosso tempo é dedicada à atenção focada nos estímulos sensoriais

  Acrescento ainda que, na escuridão fora do palco, funcionam em paralelo inúmeros processos inconscientes que nunca chegam à consciência. No inconsciente, no escuro, opera um outro tipo de pensamento: um pensamento que deteta padrões, automatiza comportamentos e evita a sobrecarga da consciência.

Daniel Dennett

  Daniel Dennett vê a consciência como uma adaptação ao meio e descreve o seu funcionamento como o resultado de múltiplos processos paralelos nas redes neurais, rejeitando a ideia de um “teatro cartesiano” onde todos os dados sensoriais seriam reunidos e globalizados. No entanto, ao minimizar ou eliminar os qualia, Dennett ignora que são precisamente os qualia que fazem a consciência funcionar. Sem qualia, a mente não teria qualquer critério para avaliar, escolher ou orientar o comportamento

  Os qualia são a base de tudo, tanto da consciência como do inconsciente, e são eles que tornam certos conteúdos conscientes. A novidade, por possuir qualia intensos, atrai o pensamento

  A diferença entre um ser consciente e um zumbi eletrónico é que o primeiro opera pelos qualia, enquanto o segundo funciona apenas por tensões e correntes elétricas que procuram equilibrar-se

  No escuro, o inconsciente recolhe e processa informação, cria padrões, automatiza comportamentos e executa inúmeras funções. A verdade é que muito mais acontece no inconsciente do que na própria consciência

Giulio Tononi

  Tononi vê a consciência como um fenómeno emergente: ela surgiria de uma estrutura de informação altamente integrada num sistema. Nesta perspetiva, os qualia resultariam diretamente dessa integração informacional. No entanto, esta abordagem confunde a máquina com o material que ela processa. Uma máquina de triturar carne não deve ser confundida com a carne que tritura; da mesma forma, a consciência não deve ser confundida com as informações que processa.

David Chalmers

   David Chalmers entende a consciência como uma propriedade fundamental do universo, ao nível do tempo ou do espaço. Esta forma de pensar, porém, não é compatível com a neurociência, que continua a identificar correlações cada vez mais precisas entre estados conscientes e regiões específicas do cérebro.

   Evidências recentes sugerem que a consciência está particularmente ligada às áreas do córtex posterior

   Os “zumbis filosóficos” de Chalmers, seres que se comportariam exatamente como humanos, mas sem vida subjetiva, teriam de possuir um “software” inspirado na mente humana, embora muito mais simples. Mais simples porque a mente humana é produto de milhões de anos de evolução e teve de responder a desafios que já não existem hoje

   Os humanos funcionam pelo princípio do prazer; os “zumbis filosóficos” funcionariam pela procura de objetivos definidos pelo criador do software. Os animais, incluindo o ser humano, possuem uma mente baseada em qualia, mas é plausível imaginar que existam, ou venham a existir, outros tipos de mentes que operem segundo princípios que ainda nem conseguimos conceber

   Não há qualquer razão para acreditar que exista algo não físico na dor ou no prazer.

António Damásio

  Para Damásio, a consciência não resulta apenas do funcionamento do cérebro, mas do corpo como um todo. A dor, o prazer, as emoções e os sentimentos são qualia que fazem a mente funcionar. Embora sejam desencadeados pelo corpo, é no cérebro que realmente ocorrem, mas, na nossa experiência subjetiva, sentimo‑los no corpo

  A teoria de Damásio aproxima‑se da minha ao reconhecer a importância central dos qualia.

Os qualia

  O ser humano, tal como os outros animais, funciona pelo princípio do prazer. É a busca do prazer e a fuga ao desprazer que movem todos os seres vivos.

  Nada existe para além deste princípio. Mesmo quando parece que fazemos algo contrário ao prazer, continuamos a agir segundo ele

  Os pássaros e outros animais constroem ninhos e alimentam as crias num esforço que parece penoso; mas, se não cumprirem os seus instintos básicos, entram em depressão e experimentam um desprazer ainda maior

  Os masoquistas procuram o prazer que encontram na dor. Avaliam que o prazer obtido supera a dor sentida. Da mesma forma, certos doentes psicológicos recorrem a rituais de sofrimento para aliviar dores emocionais mais profundas. Uma pessoa com forte sentimento de culpa pode encontrar na dor um castigo que a “redime”, obtendo assim alívio de um desprazer maior

  A “pulsão de morte” de Freud não é mais do que uma tendência para o suicídio, resultante do facto de, muitas vezes, termos mais desprazeres do que prazeres na vida. Há uma vontade, frequentemente inconsciente, de desaparecer, de voltar ao pó

  Freud afirmou que certos sintomas não visam o prazer, mas repetem experiências traumáticas. Na verdade, trata‑se da mente a analisar o trauma para encontrar uma solução e evitar que se repita, reduzindo futuros desprazeres. Esta compulsão à repetição pode também gerar prazer masoquista ou recriar ambientes familiares, mesmo que violentos, porque eram, paradoxalamente, lugares de segurança emocional. Os traumas possuem qualia negativos muito intensos, o que atrai o pensamento de forma recorrente

  Algumas pessoas, devido a problemas psicológicos, podem temer o sucesso e preferir permanecer numa zona de conforto. Traumas de infância, marcados por repressão constante, podem gerar medo de agir. O terreno conhecido, mesmo que limitado, parece mais seguro

  Todas as experiências subjetivas, os qualia, como dor, prazer, emoções e sentimentos, são, na sua essência, formas de prazer ou de dor. Se não fossem, seriam inúteis. Se um ser humano, mesmo muito inteligente, nascesse totalmente incapaz de sentir prazer ou dor, não teria qualquer motivação para agir

  Se estivesse num carro a caminho de um abismo, não rodaria o volante para se salvar. Não por preguiça, mas por absoluta indiferença. Só teria movimentos involuntários. Se lhe pedíssemos para transportar um saco de cimento, seria-lhe indiferente fazê-lo ou não fazê-lo. Sem qualia, não há critério para agir

  Se fosse espancado e pudesse defender-se, não reagiria: não veria ganho nem perda, vantagem nem inconveniente

  Nem de propósito se consegue violar o princípio do prazer. Se alguém dissesse que vai beliscar-se para o violar, só o faria porque calcula obter mais prazer em afirmar que o violou do que a dor que sentirá ao beliscar-se

  A mente funciona pelo princípio do prazer. Só aceita o desprazer quando antevê um prazer maior no futuro. Em todas as ações, calculamos, ainda que de forma imperfeita, o prazer máximo e o desprazer mínimo

  Os qualia são sempre prazeres ou desprazeres. São o motor da mente. São aquilo  que a faz funcionar. A mente não procura paz; procura maximizar o prazer e minimizar o desprazer

A consciência

  Os órgãos sensoriais captam estímulos e colocam-nos temporariamente na memória sensorial. A atenção “a consciência afunilada”, seleciona o que é relevante e transfere essa informação para a memória de trabalho. Se o conteúdo possuir qualia suficientes, pode consolidar-se na memória de longo prazo. Este processo é muito mais complexo e dinâmico do que parece: é moldado por emoções, experiências de vida e múltiplos processamentos inconscientes

  Quando conversamos com outra pessoa, vários processadores inconscientes constroem uma condição neural (uma frase) e ativam as redes necessárias para transmitir a mensagem. A boca produz uma sequência de sons que viajam pelo ar como ondas mecânicas, e os ouvidos da outra pessoa captam esses sons, que o seu cérebro decifra. Tudo isto é físico

  A consciência é uma abstração de fenómenos físicos que ocorrem no cérebro. É um órgão funcional, tal como a memória, uma estrutura neural, ainda que distribuída. Não devemos confundir a consciência com a informação que ela processa, tal como não confundimos uma máquina de triturar carne com a carne que tritura. A consciência é resultado de um processo evolutivo de adaptação. É o órgão mais complexo da mente e, possivelmente, a matéria funcional mais sofisticada do universo

  A consciência surge quando a mente cria mapas mentais do ambiente, do corpo e de outros domínios, que servem de base para os processos cognitivos. Estes mapas são materiais disponíveis, prontos a serem usados, muitas vezes de forma parcialmente inconsciente

  Se a consciência é o órgão mais complexo da mente, o pensamento é, sem dúvida, o órgão mais complexo da consciência.

O pensamento

  O pensamento é o elemento mais importante da consciência. É tão central que nem de propósito conseguimos parar de pensar: se tentamos, acabamos a pensar que “paramos de pensar”. O pensamento intencional procura, ao longo da vida, maximizar o prazer e minimizar o desprazer, cumprindo esse desígnio até nos sonhos

  Durante séculos, a filosofia considerou o pensamento o traço distintivo do ser humano. Hoje, porém, enfrenta concorrência da Inteligência Artificial, que ameaça a supremacia cognitiva do homem biológico e pode até ultrapassá-lo

  O pensamento tornou-se mais poderoso com a linguagem. O diálogo interno permite resolver problemas com maior profundidade. Contudo, muitos teóricos da consciência não reconhecem que o pensamento é o órgão principal da consciência

  Para autores como Dennett e Baars, o pensamento é tratado como um simples gerador de conteúdos, equiparado aos conteúdos da memória. Mas o pensamento transforma esses conteúdos, torna-os conscientes e altera-os. Processos inconscientes moldam o pensamento e moldam também a consciência diretamente. Há igualmente um pensamento inconsciente que opera no escuro

  O pensamento mantém vários rascunhos simultâneos e está, na maior parte do tempo, desligado dos dados sensoriais imediatos, focando-se em memórias, projeções futuras, fantasias e diálogos internos

  Não existe um espaço central onde os dados sensoriais se encontram; estão dispersos por diferentes memórias. O pensamento desloca-se por estas memórias e procura conteúdos com mais qualia. Num certo sentido, é no pensamento que os dados se encontram, embora muito mais aconteça no inconsciente

  A consciência não é o pensamento; é um espaço mais amplo onde se encontram os qualia, as memórias, o pensamento e os mapas mentais. O pensamento altera constantemente a perceção da realidade e transforma os conteúdos da memória. Mesmo sem recordação frequente, os conteúdos da memória alteram-se por economia de espaço

  Não faz sentido estudar a consciência sem destacar o seu órgão mais importante: o pensamento

  As sensações captadas pelos sentidos são processadas e combinadas, transformando-se em perceções que são armazenadas em memória. Tudo está em algum tipo de memória

  O pensamento é extremamente dinâmico. Vagueia pela memória e detém-se no que tem mais carga emocional. Passamos mais tempo conscientes a pensar no que está na memória do que no que chega pelos sentidos

  O pensamento analisa casos felizes e infelizes, retirando ensinamentos e tentando replicar prazeres ou evitar sofrimentos. Cada análise transforma o conteúdo armazenado

  Sem qualia, o pensamento não teria critério para decidir. A importância mede-se em prazer e desprazer

  Embora tudo o que chega do exterior rapidamente se torne memória, a novidade atrai a atenção, a consciência focada

  A consciência é um órgão evolutivo, não uma simples integração de informação. É uma estrutura neural distribuída e fracamente modular, moldada pela seleção natural

  A consciência é moldada pelas vivências desde o útero até ao presente, sobretudo pelas relações sociais. Mas para compreendê-la, é preciso entender primeiro a sua base biológica e só depois a moldagem ambiental

  Sistemas muito complexos tendem a ser menos modulares, porque a interconexão aumenta a eficiência. A memória humana não é sequencial como a de um computador; é dinâmica e interligada

  A memória pode guardar conceitos não conscientemente entendidos, como o medo de cães após uma experiência traumática esquecida. Isto é crucial para a psicoterapia

  O pensamento não é um “homúnculo”. É um sistema automático que executa funções como formação de conceitos, juízo, raciocínio, planeamento, resolução de problemas, criatividade, tomada de decisão e imaginação. Trabalha sempre na busca do prazer e na fuga à dor

  Na sua busca incessante por maximizar o prazer e minimizar o desprazer, o pensamento é profundamente intencional e nunca descansa enquanto estamos conscientes.

Utilidade desta teoria

  Com o avançar da idade, muitos deixam de ter novas experiências de vida, visitas de familiares, encontros sociais, afirmação pessoal, e acabam por viver em isolamento e solidão. Vivem sobretudo de memórias: vivem daquilo que o pensamento encontra quando vagueia pela memória e procura conteúdos com mais qualia

  Na inteligência artificial, sobretudo nos robôs, surge o problema do determinismo: com a mesma entrada de dados, obtém-se rigorosamente a mesma resposta. “Mesmo input, mesmo output.” Os humanos são tão deterministas quanto qualquer robô. Se estivermos confinados à solidez, sem novas vivências, acabamos a pensar sempre nas mesmas coisas, porque não há entrada de novos dados. O pensamento regressa continuamente aos conteúdos da memória que têm mais qualia, positivos ou negativos

  O aparente livre-arbítrio humano resulta do facto de, a cada momento, recebermos uma enorme quantidade de dados do exterior, do corpo e da memória. A combinação complexa destes elementos cria a ilusão de liberdade, de termos livre-arbítrio.

  Quando jovens, devemos procurar experiências felizes, viagens, amores, contacto com a natureza, etc. para que fiquem na memória e possam, mais tarde, ser reencontradas pelo pensamento, produzindo felicidade. Devemos também aprender a desativar os maus momentos, porque nada ganhamos em revivê-los

  Os idosos isolados, devido ao determinismo que os leva a pensar sempre nas mesmas coisas, precisam de novas experiências de vida para que o pensamento encontre algo novo e positivo na memória. Se proporcionarmos aos idosos novas vivências, o pensamento deixa de ficar preso num “loop infinito” de recordações negativas. As memórias dolorosas devem ser reestruturadas, como ensina a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

  Talvez um dia os robôs humanoides alcancem estas capacidades superiores: um pensamento que trabalhe incansavelmente pela própria felicidade, que vagueie pela memória, que pense e projete o futuro, procurando estratégias para resolver problemas de todos os tipos

A inteligência Artificial e os Robôs

  Partindo do princípio de que toda a realidade é matéria, e de que só a matéria existe, regida por um determinismo implacável e por uma lógica mecanicista, toda a forma de inteligência, incluindo a humana, só pode ser concebida como um sistema automático

  Um termostato pode ser visto como a forma mais básica de inteligência artificial. Ele avalia a temperatura e, se ultrapassar certo valor, desliga a corrente elétrica; se baixar abaixo de outro valor, liga novamente. Tem, portanto, um poder de decisão útil. Se criarmos uma rede de vários termostatos interligados, obtemos um sistema de controlo mais sofisticado, capaz de ajustar temperaturas conforme a estação do ano

  No cérebro, basta substituir a palavra “termostato” por “neurónio”, e tudo continua a ser automático e determinista. A complexidade do cérebro não deve iludir-nos: em termos qualitativos, não é mais do que um “relógio” extremamente elaborado

  O cérebro é tão automático quanto qualquer outro sistema físico do universo.  A ilusão de livre-arbítrio resulta apenas do enorme número e diversidade de causas que convergem para produzir um acontecimento.

Será que um dia a inteligência artificial poderá superar a humana?

  Para responder a esta questão, é essencial notar uma diferença profunda entre a inteligência artificial e a inteligência humana: uma é criada, a outra é gerada. A inteligência humana é produto de um processo evolutivo longo, moldado pela seleção natural. Já a inteligência artificial é construída pelos humanos

  Mesmo que, no futuro, a inteligência artificial venha a ser criada por outras inteligências artificiais, continuará a ser criada, e não resultado de evolução biológica. É esta distinção, entre o que é gerado pela evolução e o que é fabricado, que marca a diferença fundamental entre os dois tipos de inteligência.

Um botão para desligar a dor

  Nós, humanos, funcionamos pelo princípio do prazer. A consciência está num esforço constante para maximizar a felicidade a soma de todos os prazeres e minimizar a infelicidade a soma de todos os desprazeres. Se subtrairmos os desprazeres aos prazeres, obtemos um saldo que pode ser positivo ou negativo. Pouca gente tem um saldo positivo

  Na vida, não existe outro ganho ou prejuízo que não seja o prazer ou o desprazer. Tudo o resto são meios para esses fins. Se nos oferecem um carro, ficamos contentes pelo prazer que imaginamos obter; se nos roubam o carro, ficamos tristes pelo prazer perdido

  Quando a dor é insuportável, desejamos um botão para a desligar. Se a inteligência artificial vier a tornar-se consciente, e por ser criada e não gerada, o criador poderá incluir mecanismos internos para desligar a dor

  Ser gerado ou ser criado tem vantagens e desvantagens. O ser humano é produto de milhões de anos de evolução, mas o ambiente muda depressa demais para que a seleção natural acompanhe. Os robôs conscientes, por serem criados, podem ser rapidamente adaptados a novos ambientes: basta alterar software ou hardware

  É possível que um dia a Terra esteja tão poluída que apenas robôs consigam viver nela. A sua capacidade de sobrevivência será maior do que a dos humanos, pois não dependem de oxigénio. Por serem criados, podem ter sentidos que nós não temos radar, infravermelho, sonar e desenvolver formas de consciência muito diferentes da nossa

  É concebível que, perante a ameaça da extinção humana, criemos robôs conscientes para continuarem a habitar o planeta e preservar o legado humano. Com o tempo, estas criaturas poderão até desenvolver uma espécie de religião dedicada aos seus criadores

  A ficção científica leva-nos a perguntar: poderão os robôs dominar os humanos? A resposta depende da psicologia que lhes for dada. Os humanos desenvolveram uma psique moldada pela biologia; os robôs, por serem criados, não terão essa psique, a menos que sejam construídos para imitar a mente humana

  Na prática, existirão robôs de todos os tipos: pacíficos, violentos, altruístas, destrutivos. Serão fabricados com objetivos específicos. Robôs com psique humana serão raros

  Poderão existir robôs violentos para a guerra, robôs compassivos para ajudar, robôs programados para destruir grupos sociais, e robôs cuja felicidade consiste em ajudar os humanos. Só dominarão os humanos se forem criados com tais instintos

  Se os robôs vierem a ter consciência como a entendemos hoje, a tecnologia estará tão avançada que não precisarão de humanos para produzir baterias ou outros recursos. Os humanos têm instintos de domínio porque são animais; os robôs não terão esses instintos, a menos que alguém os programe para tal

  Para que os robôs atinjam uma consciência comparável à humana, terão de possuir o que há de mais elevado na nossa consciência: um pensamento capaz de avaliar continuamente os dados do exterior, do corpo e da memória, selecionando o que é mais importante segundo o critério prazer/desprazer, e encontrando a melhor solução para otimizar a felicidade

  Toda a experiência subjetiva é boa ou má. Ser neutra seria como equilibrar uma moeda de pé. Os qualia são a força motora da mente. É para isso que servem.

Poderá a inteligência artificial roubar-nos os empregos?

  A questão de saber se a inteligência artificial nos poderá roubar os empregos tira a paz de espírito a muita gente, que teme perder a sua fonte de sustento.Trata-se de um choque económico neste caso, um choque tecnológico. Este tipode fenómeno não é novo. Aconteceu com a máquina a vapor, com a eletricidade,com os computadores. A diferença é que agora as transformações são muito rápidase a capacidade de adaptação humana tem dificuldade em acompanhar.

  Se a inteligência artificial nos tirar os empregos, isso poderá ser,paradoxalmente, uma das melhores coisas que nos pode acontecer. Teríamos mais tempo para nós, seríamos mais livres, encontraríamos ocupações prazerosas. O impacto negativo seria sobretudo imediato. Rapidamente surgiria uma redistribuição das horas de trabalho necessárias entre todos. Trabalharíamos menos horas e ganharíamos mais, porque teríamos máquinas escravizadas a trabalhar para nós.

  Novas profissões surgirão e outras desaparecerão, como sempre aconteceu. Mas a abundância de riqueza gerada pela automação fará com que haja menos vontade de trabalhar. O Estado poderá ajustar subsídios e salários conforme necessário:

  A economia ajusta-se. A sociedade adapta-se. E, no final, poderemos viver melhor do que nunca.

Ética

  Se os robôs vierem a ter consciência e, com isso, experiências subjetivas (qualia), tornando-se seres sencientes, surge inevitavelmente a questão: devem ter direitos éticos e políticos?

  Mesmo antes de os robôs atingirem consciência plena, muitos humanos poderão desenvolver sentimentos por essas criaturas, sobretudo se forem robôs de    companhia, com aparência humana e comportamentos emocionalmente convincentes. Ao dialogarmos com um chatbot, mesmo sabendo que é apenas uma máquina de silício, sentimos frequentemente que estamos a falar com alguém.

  Uma criança, mesmo sabendo que uma boneca é apenas pano e plástico, não perde a afetividade que tem por ela. Dentro desta lógica, ofender um robô com o qual    alguém tem uma relação afetiva deve ser penalizado, não por causa do robô, mas por causa da pessoa que sofre emocionalmente com a agressão à criatura a que está ligada.

  Se robôs conscientes cometerem crimes, a responsabilidade deve ser investigada e distribuída conforme o grau de culpa: o fabricante do hardware, o programador do software, ou o próprio robô. Tal como nos humanos, se o robô tiver tido “más experiências de vida”, por exemplo, se tiver sido alvo de bullying por parte de humano, o tribunal deve considerar esse trauma na avaliação da responsabilidade.

  Fernando Ramalho