Fernando Ramalho  
A CONSCIÊNCIA  
RESUMO  
A evolução da consciência, rapidamente adquiriu competências sociais, e com o  
surgimento da linguagem o pensamento tornou-se muito poderoso e a consciência,  
que está constantemente a ser modelada pelo pensamento, ampliou-se muito.  
Pensadores, como Bernard Baars e Daniel Dennett, muito contribuíram para a  
compreensão da consciência, mas deram demasiada importância à entrada dos  
dados sensoriais, e parece não terem percebido que a maior parte do tempo não  
estamos concentrados no que nos chega do exterior, mas a pensar no que temos  
na memória de longo prazo, e a imaginar um melhor futuro, etc.  
A mente funciona pelo princípio do prazer. Nada existe para além do princípio do  
prazer.  
Os QUALIA são a força motora da mente. Sem os qualia a mente não encontraria  
critério para funcionar. Não saberia avaliar o valor das coisas, para poder decidir.  
Não faz sentido, tentar compreender a consciência, sem estudar o pensamento,  
porque o pensamento está constantemente a atuar sobre a consciência e a alterá-  
la.  
Os possíveis futuros robôs conscientes, serão criados e não gerados, e isto faz toda  
a diferença. Terão a consciência que os humanos (ou outros robôs) decidirem que  
devem ter, e provavelmente não terão uma psique idêntica à humana que resultou  
de um processo evolutivo. Terão uma consciência adaptada às necessidades a que  
se destinam.  
A origem da consciência  
A consciência, resultou de um processo evolutivo por seleção natural, o que soltou o  
homem (e outros animais) das forças da natureza, dando assim a sensação de  
termos livre-arbítrio.  
O livre-arbítrio, como o imaginamos, surgiu com o advento da consciência. Sem a  
consciência, seriamos movidos por forças naturais, como acontece com os objetos  
inanimados. A sofisticação e complexidade da consciência, faz-nos sentir que  
vivemos num mundo não determinista, e que temos livre-arbítrio. Esta crença è  
muito útil no nosso dia a dia.  
A consciência parece ter começado desde muito cedo a ter funções sociais. Os  
humanos sendo animais sociais, e com fortes necessidades de viver em grupo, para  
poderem sobreviver, desenvolveram uma consciência que começou por ter a  
utilidade de adaptar o indivíduo ao ambiente físico, mas logo se desenvolveu no  
sentido de favorecer as relações sociais. Com o surgimento da linguagem, a  
consciência fortaleceu-se. A linguagem tornou muito mais fácil o ato de pensar e  
comunicar. Com a linguagem criou-se uma consciência social avançada.  
A evolução biológica da consciência, deu-se por seleção natural, onde os mais  
aptos sobrevivem e reproduzem-se mais facilmente, e os mais fracos têm menos  
hipóteses de sobreviver e de se reproduzirem-se. Na seleção natural, os homens  
com mais capacidades de relacionamento social, tendem a reproduzirem-se mais  
facilmente.  
Para nós humanos, não é fácil compreender este tema tão complexo. É a  
consciência a querer ter consciência de si mesma.  
Com o avanço da ciência, sobretudo da neurociência, o estudo filosófico da  
consciência tende a dar lugar ao estudo científico da consciência, mas ainda está  
longe o dia em que a filosofia da consciência, se torne obsoleta, e só reste a ciência  
da consciência, isto devido à complexidade do tema.  
Os principais filósofos da consciência, adotam uma das seguintes posturas:  
Dualismo: Vê o corpo e a mente como, duas realidades ontologicamente  
diferentes. O principal representante desta  
Descartes que  
a mente é espírito, e que a matéria  
pineal. Este modo de entender a mente/consciência, hoje apenas tem  
conceção da mente è René  
acreditava que o corpo (incluído o cérebro) è matéria, e  
se ligava ao espírito pela glândula  
importância, para aqueles que acreditam em realidades místicas, e negam a  
ciência. O Dualismo de Propriedade, advoga que a consciência,  
emerge do cérebro, mas não pode  
físico do cérebro.  
ser explicada pelo funcionamento  
Tudo é físico, mas devido à complexidade do funcionamento do  
cérebro,  
e aos limites cognitivos humanos, podemos tentar compreender  
a
consciência pelas leis emergentes.  
Fisicalismo: Só o mundo físico existe, nada mais existe para além do  
físico. A consciência resulta do funcionamento do cérebro, que  
por  
sua vez resulta da biologia, que resulta da física. A consciência é redutível  
aos processos  
físicos no cérebro, mas nós humanos com o estado atual  
do conhecimento científico, e com os nossos limites cognitivos, podemos  
entender a consciência pelas leis  
emergentes.  
Esta é a minha posição.  
Panpsiquismo:  
Existe consciência em tudo, até em partículas atómicas.  
Pode haver, ou vir a haver, outras formas de consciência, mesmo  
que não as entendamos como tal, mas parece exagero que  
consciência em tudo. È uma teoria fraca.  
há uma  
Trata-se  
de uma teoria especulativa.  
Idealismo: Tudo só existe na mente, é uma criação da mente.  
Esta teoria parece inspirar-se na vida que vivemos nos sonhos. Em  
que tudo è nada. È uma postura desfavorável à ciência.  
Funcionalismo: O que importa é a função, independente do substrato de  
base. Este modo de pensar é mais filosófico que  
cientifico, mas de  
grande impacto, sobretudo na evolução da inteligência artificial.  
O
funcionalismo é uma grande teoria. Uma calculadora faz  
facilmente funções do cérebro. Podemos acreditar que os qualia, como por  
exemplo a dor, um dia poderão ser produzidos em outro substrato de  
base. Com o advento da inteligência artificial, a abordagem  
funcionalista torna-se de extrema importância. A inteligência  
artificial um dia terá funções de consciência fenomenal  
A EMERGÊNCIA  
Só o mundo físico existe, e assim sendo, a consciência, nada mais è que a matéria  
a funcionar.  
Se Deus existisse, e fizesse uma cópia deste universo. Uma cópia rigorosa, sem  
que a mais pequena partícula se encontrasse deslocada, e colasse noutro espaço, e  
se milhões de anos depois, num dos universos, uma senhora Maria, estivesse a  
tentar enfiar uma linha no buraco de uma agulha, rigorosamente, no outro universo  
também estaria uma senhora Maria a enfiar uma linha num buraco de uma agulha.  
Tudo estaria sincronizado no tempo. Só o físico existe, tudo é efeitos do mundo  
físico.  
Se soubéssemos tudo sobre os átomos de hidrogénio e sobre os átomos de  
oxigénio, poderíamos prever as propriedades da molécula de água, HO.  
A molécula da água, não tem nenhuma propriedade nova que emerge da  
junção dos três átomos. No entanto, para os cérebros humanos, com os seus limites  
cognitivos, è difícil, pensar a molécula de água, levando em conta todas  
propriedades dos átomos que a compõem, e a interação entre eles.  
Um possível alienígena muito mais inteligente que os humanos, não teria  
dificuldade em compreender a molécula de água, pelas propriedades dos seus  
átomos constituintes.  
O conceito de emergente, neste contexto, não é uma propriedade da  
natureza, mas sim, uma questão epistemológica para os humanos. O conceito de  
emergente, existe, e deve existir, para facilitar a nossa compreensão. Simplifica a  
nossa perceção da complexidade das coisas.  
Com a evolução da neurociência, os filósofos começarão a conceber a consciência  
por uma ótica mais reducionista, e menos emergentista.  
A emergência, não é a soma das partes, mas é uma, fórmula matemática (ou  
algo parecido) das partes, e é redutível às partes.  
O software compilado, é emergente do código-fonte que o gerou, mas podemos  
tentar descompilar, e obter o código-fonte, usando engenharia reversa de software.  
É um exemplo de reducionismo, do emergente à sua base.  
No entanto, para os humanos, pensar a molécula de água, pensando nas  
forças físicas que acontecem nos seus átomos e entre eles, seria demasiado  
complicado e desnecessário, porque as novas leis que emergem, (que mais não são  
que as leis físicas dos átomos combinadas, mediante uma "fórmula matemática", e  
suscetíveis de sofrerem reducionismo) facilitam o nosso entendimento das coisas.  
Tudo isto para dizer que o conceito de emergência, não está na matéria, mas  
no nosso modo de mais facilmente compreender a matéria.  
Principais teorias da consciência  
Bernard Baars  
Baars è conhecido pela sua Teoria do Espaço de Trabalho Global.  
As informações chegam a uma espécie de teatro, onde são selecionadas pela  
atenção, como que iluminadas por um holofote. Estas informações selecionadas,  
são os conteúdos conscientes. Estes conteúdos são globalizados e tornam-se  
acessíveis aos processos inconscientes especializados, que executam as tarefas  
necessárias ao funcionamento da consciência.  
Baars, aponta o holofote para os dados sensoriais, e esquece que nós passamos a  
maior parte do tempo a pensar nos dados que temos na memória, a pensar no  
futuro, ou a construirmos castelos no ar dando largas à imaginação, vivendo vidas  
imaginadas, e só uma pequena parte do nosso tempo temos a atenção focada nos  
dados sensoriais.  
Eu acrescento, que na escuridão, também funcionam em paralelo, processos  
inconscientes que nunca passaram pela consciência (palco). Parece também haver  
pensamento no inconsciente, ou melhor, o pensamento também funciona no  
inconsciente, no escuro.  
Daniel Dennett  
Daniel Dennett, vê a consciência como resultado de adaptação ao meio. Vê o  
funcionamento da consciência como resultado de diferentes processos paralelos  
nas redes neurais. Combatendo a ideia de um “teatro cartesiano” onde todos os  
dados recebidos do exterior se encontram, e depois se globalizam.  
Dennett parece eliminar os qualia, mas os qualia são o que faz a consciência  
funcionar. Sem os qualia, a mente não encontra critério para nada. Os qualia são a  
base de tudo, tanto na consciência como do inconsciente.  
São os qualia que fazem os conteúdos se tornarem conscientes. A novidade, que  
por ser novidade, tem um forte qualia, e atrai o pensamento.  
A diferença entre um ser consciente, e um zumbi eletrónico, è que um ser  
consciente funciona pelos qualia, e um zumbi eletrónico por tensões elétricas, que  
através de correntes elétricas tentam se anular.  
No escuro, o inconsciente, sorrateiramente, colhe informações e as processa, e  
executa muitas outras funções. È muito mais o que acontece no inconsciente que na  
consciência.  
Giulio Tononi  
Tononi vê a consciência como emergente, A consciência emerge de uma estrutura  
de informação integrada em um sistema, e explica os qualia como resultando dessa  
informação integrada.  
Confunde a máquina com o material que ela processa. Uma máquina de triturar  
carne, não deve ser confundida com a carne que processa, nem a consciência com  
as informações que processa.  
David Chalmers  
David Chalmers, entende a consciência como uma propriedade fundamental do  
universo, como o tempo, o espaço, etc.  
Este modo de pensar não é compatível com a neurociência. A neurociência,  
continua a fazer descobertas sobre onde se localiza a consciência no cérebro.  
Evidência recente, apontam no sentido que a consciência parece estar ligada às  
regiões do córtex posterior.  
Os “zumbis filosóficos” de David Chalmers, seres que se comportariam como um ser  
humano, mas sem vida subjetiva, teriam que ter um “software” inspirado na mente  
humana, mas podendo ser muito mais simples. Mais simples porque a mente  
humana evoluiu ao longo de milhões de anos, e teve que responder a situações que  
não existem hoje. Os humanos funcionam pelo princípio do prazer. Os “zumbis  
filosóficos” pela procura de atingirem objetivos determinados pelo criador do  
software.  
Os animais (incluindo o homem) têm uma mente que funciona à base de qualia,  
mas podemos acreditar que existam ou venha a existir, outros tipos de mentes que  
funcionem por algum princípio que nem conseguimos imaginar.  
Não podemos acreditar que exista algo, não físico, na dor/prazer.  
António Damásio  
Para Damásio, a consciência não resulta, apenas, do funcionamento do cérebro,  
mas sim do corpo como um todo.  
A dor, o prazer, as emoções, os sentimentos, são os qualia que fazem funcionar a  
mente, mas embora sejam ativadas pelo corpo, é no cérebro que acontecem, mas  
apesar de acontecerem no cérebro, na nossa experiência subjetiva, sentimos no  
corpo.  
A teoria de Damásio aproxima-se da minha por dar importância aos qualia.  
Os qualia  
O homem, e os outros animais, funcionam pelo princípio do prazer. É a busca do  
prazer e fuga ao desprazer, que move os homens e os animais em geral. Nada mais  
existe para além do Princípio do Prazer.  
Tudo o que fazemos é sempre na busca do prazer e fuga ao desprazer, mesmo  
quando parece o contrário.  
Os pássaros, e outros animais, constroem ninhos, e buscam comida para os filhos,  
num esforço aparente de desprazer, mas não é bem assim. Se não cumprirem os  
instintos básicos naturais, entram em depressão e têm um desprazer maior.  
Os masoquistas buscam o prazer que encontram na dor. Calculam ser esse prazer  
maior que a dor, e alguns doentes psicológicos encontram em rituais de sofrimento,  
alívio de dores psicológicas maiores, como no caso dos neuróticos. Por exemplo,  
uma pessoa com fortes sentimentos de culpa, pode encontrar na dor um castigo que  
lhe permite redimir a culpa, e assim alivio da dor maior da culpa.  
A “pulsão de morte” de Freud, mais não é que uma vontade de suicídio, porque  
geralmente temos mais desprazeres que prazeres nesta vida, e há uma vontade,  
muitas vezes inconsciente, de desaparecermos. Uma vontade de nos tornarmos pó.  
Freud disse que certos sintomas não visam o prazer, mas repetem experiências  
traumáticas. Isso, mais não è que a mente a analisar os traumas, a fim de encontrar  
uma solução, e evitar que se repitam no futuro, com o objetivo de reduzir futuros  
desprazeres. Esta compulsão à repetição do trauma, pode também ser fonte de  
prazer masoquista, e/ou tentar reviver situações antigas, normalmente familiar, onde  
apesar da violência de que se era vítima havia uma sensação de segurança e  
ambiente familiar, o que a tornava preferível. Os traumas têm fortes qualia negativo,  
o que atrai o pensamento de forma recorrente.  
Pessoas com certos problemas psicológicos, podem sentir medo de ter sucesso, e  
não quererem sair da situação de conforto em que se encontram por já estarem  
habituadas, e devido a, um complexo de inferioridade, terem medo do  
desconhecido. Optam por viver em terreno conhecido e seguro. Na origem pode  
estar traumas de infância, em que eram fortemente reprimidas por tudo o que  
faziam, e agora temem fazer qualquer coisa.  
Todas as experiências subjetivas, a que chamamos QUALIA (dor, prazer, emoções,  
sentimentos, etc.) são, na sua essência, uma forma de prazer ou dor. Se assim não  
fosse seriam inúteis.  
Se um humano, mesmo sendo muito inteligente, nascesse absolutamente sem a  
mínima sensibilidade a qualquer prazer ou a qualquer dor, (sem qualia) e se se  
encontrasse num carro em andamento, em direção a um abismo, não teria qualquer  
interesse em rodar o volante para um lado, a fim de evitar um fim trágico.  
Este homem, sem qualia, estaria sempre imóvel, não por preguiça, mas por não  
encontrar qualquer motivação para qualquer ação. Poderia apenas ter movimentos  
involuntários.  
Se lhe pedíssemos que fizesse uma ação e argumentássemos que não teria  
qualquer desprazer em transportar um saco de cimento de um lado para outro. Para  
ele seria indiferente, transportar o saco de cimento às costas de um lado para outro,  
ou não transportar, por não sentir qualquer prazer ou desprazer. Ficaria imóvel, por  
indiferença. Teria apenas movimentos involuntários.  
Se o espancassem, e ele pudesse facilmente defender-se, e até entendesse que  
poderia morrer, não reagiria por não encontrar, qualquer ganho ou perca, vantagem  
ou inconveniente.  
Nem de propósito se foge ao princípio do prazer. Se com a intenção de violar o  
princípio do prazer, alguém dissesse: Eu vou beliscar-me e sei à partida que terei  
mais desprazer que prazer, e assim violo o princípio do prazer, tendo uma ação em  
que não busco o prazer ou evito o desprazer. Quem proceder assim, calculou, à  
partida, que teria mais prazer em dizer que violou o princípio do prazer, que na dor  
que obteria ao se beliscar, não violando assim o princípio do prazer.  
A Mente funciona pelo princípio do prazer, só pode aceitar o desprazer, se tiver a  
perspetiva de um prazer maior no futuro. Nas nossas ações sempre calculamos o  
prazer máximo, e o desprazer mínimo, mas podemos errar nos cálculos. Tudo deve  
ser visto por esta ótica.  
Os QUALIA, sempre são prazeres ou desprazeres. São o motor da mente. São o  
que a faz funcionar.  
A mente não funciona pela busca da paz, mas sim, por maximizar o prazer, e  
minimizar o desprazer.  
A CONSCIÊNCIA  
Os órgãos sensoriais captam os estímulos, e os põem na memória sensorial  
temporariamente. Depois a atenção que é “a consciência afunilada” seleciona o que  
interessa e coloca na memória de trabalho. Se tiver qualia suficiente pode passar  
para a memória de longo prazo. Este processo é mais complexo, e dinâmico, do que  
pode parecer, é moldado por emoções, experiências de vida, e processamentos  
inconscientes.  
Se estivermos a conversar com outra pessoa, o que acontece?  
Processadores inconscientes constroem uma condição neural (uma frase) e  
acionam as redes neurais necessárias para transmitir a mensagem à pessoa com  
quem falo. A minha boca gera uma sequência de sons necessários, que são  
transmitidos, em forma de ondas mecânicas pelo ar (som), e os ouvidos da pessoa  
que me ouve, capta o som e depois seu cérebro decifra a mensagem. Tudo isto è  
físico.  
A consciência mais não é que uma abstração de fenómenos físicos que ocorrem no  
cérebro. A consciência é um órgão que existe no cérebro, tal como a memória. È  
uma certa estrutura neural, ainda que distribuída. Não devemos confundir a  
consciência com a informação com que ela trabalha. Seria como confundir uma  
máquina de triturar carne com a carne que tritura. A consciência è resultado dum  
processo evolutivo de adaptação. É o órgão mais complexo da mente e  
possivelmente, a matéria funcional mais sofisticada do universo.  
A consciência surge de a mente criar mapas mentais do ambiente, do corpo e  
outros, que servem de base, onde acontecem os processos cognitivos. Estes mapas  
mentais são materiais que estão à mão, porque podem ser precisos, ou estão a ser  
usados de um modo meio inconsciente.  
Se a consciência è o órgão mais complexo da mente, o pensamento, sem dúvida, è  
o órgão mais complexo da consciência.  
O PENSAMENTO  
O pensamento é o elemento mais importante da consciência. É tão importante que  
nem mesmo de propósito podemos parar de pensar. Se tentarmos parar de pensar,  
acabamos a pensar: “Eu parei de pensar! Eu não estou a pensar!”.  
O pensamento intencional, tem a função de, por toda a nossa vida, estar  
constantemente a procurar a melhor maneira de nos tornar feliz. Maximizar o nosso  
prazer e minimizar o nosso desprazer. Até em sonhos está incessantemente a  
cumprir este desígnio. A descobrir a melhor maneira de sermos felizes.  
Este órgão, que a história da filosofia, considerava ser o elemento que distingue o  
homem dos outros animais, hoje está a sofrer concorrência por parte da Inteligência  
Artificial. Esta concorrência ameaça a supremacia do homem biológico,  
desvalorizando-o e ficando nele apenas aspetos de consciência básica, como  
acontece com qualquer outro animal, podendo bem provavelmente ser ultrapassado  
por uma máquina de silício.  
O pensamento tornou-se muito mais poderoso com o surgimento da linguagem.  
Com o diálogo interno podemos pensar melhor, a maior parte das questões.  
Os grandes pensadores da consciência, não têm percebido que o pensamento è o  
órgão principal, e de extrema importância da consciência. Não faz sentido falar da  
consciência sem falar do pensamento.  
O pensamento para pensadores como Dennett e Baars, tem sido visto como uma  
espécie de gerador de conteúdos, como os conteúdos que estão na memória, e  
equiparam conteúdos pensados com os que estão na memória.  
O pensamento está constantemente a trabalhar com o que está nas memórias e  
com o que chega do exterior que rapidamente se torna memória. O pensamento,  
torna estes conteúdos conscientes, atua sobre eles, e os altera. Fatores  
inconscientes moldam o pensamento e também, moldam a consciência diretamente  
sem passarem pelo pensamento. Há, também, um pensamento inconsciente que  
atua no escuro.  
O pensamento pode ter a cada momento vários rascunhos sobre o material com  
que trabalha, tentando descobrir o que faz mais sentido.  
Na consciência, o pensamento está a maior parte do tempo desconectado dos  
dados sensoriais que chegam do exterior, e focado em vivências passadas que  
encontra na memória, a pensar no futuro, a viver fantasias, em dialogo interior  
consigo mesmo ou com pessoas reais ou imaginárias. Etc.  
Não há um espaço central onde os dados sensoriais se encontram, mas estão  
espalhados por diferentes memórias e a deslocarem-se de uma memória para outra.  
O pensamento move-se pelas diferentes memórias e procura conteúdos com mais  
qualia para trabalhar sobre eles. Num certo sentido, é no pensamento, que os dados  
se encontram, no sentido da Teoria do Espaço de Trabalho Global. Muito mais se  
passa no inconsciente.  
A consciência não è o pensamento, a consciência è um espaço maior onde estão os  
qualia, as memórias, o pensamento, mapas mentais do exterior e do corpo, etc. O  
pensamento é um órgão vivo, que está constantemente a alterar a nossa perceção  
da realidade, a alterar a nossa consciência, e os conteúdos da memória quando os  
traz à consciência. A propósito dos conteúdos da memória, mesmo estando muito  
tempo sem recordar o que está na memória, seus conteúdos alteram-se, perdendo  
nitidez e caricaturando-se, isso por motivos de economia de espaço.  
Não faz sentido estudar a consciência sem dar destaque ao seu órgão mais  
importante, o pensamento.  
Dos sentidos, chegam sensações diversas, que depois de serem processadas e  
combinadas, por vias paralelas, transformam-se em perceções, que depois dos  
mais diversos processamentos, são armazenadas em uma memória. Se virmos, no  
escuro algo que parece um gato, e ouvirmos miar, percebemos ser um gato. Na  
memória fica o conceito de gato. Tudo está em algum tipo de memória.  
O pensamento è muito dinâmico. O pensamento vagueia pela memória  
incessantemente analisando o que ela contém, e detendo-se no que tem mais carga  
emocional (qualia).  
Estamos muito mais tempo conscientes a pensar no que encontramos na memória,  
do que no que nos chega do exterior pelos sentidos. As principais teorias (Teoria  
Espaço de Trabalho global e Teoria dos Múltiplos Rascunhos) esquecem isso, e  
focam-se mais nos processos cognitivos das perceções sensoriais, talvez por ser  
mais fácil de estudar.  
O pensamento analisa o caso encontrado, (com mais qualia) e tenta encontrar  
soluções para o resolver, e colher ensinamentos para uso futuro. Se o pensamento  
encontra um caso feliz na memória, contempla-o subtraindo prazer, e procura  
aprender a fim de tentar criar situações futuras parecidas geradoras de prazer. Se  
encontra um caso infeliz, tenta encontrar a melhor solução para minimizar o  
sofrimento, e procura solução para o caso encontrado, a fim de evitar casos futuro  
do mesmo tipo.  
Cada vez que o pensamento analisa um caso, feliz ou infeliz, na memória, o caso  
sofre transformações, e é reestruturado na memória.  
Sem os qualia, o pensamento não saberia o que é importante, porque a importância  
mede-se em prazer/desprazer, não teria a noção do que é bom ao mau. Não teria  
como decidir, por não encontrar um critério.  
Ficaria sem saber o que fazer, como o homem de que falei em cima, que não tinha  
qualquer sensibilidade ao prazer ou à dor.  
Podemos pensar que todos os dados que chegam do exterior, pelos sentidos, ou do  
interior do corpo (que visto pelo pensamento é aproximadamente exterior)  
rapidamente se tornam memória, e assim o pensamento trabalha apenas com as  
diferentes memórias, de curto, médio e longo prazo, mas podemos fazer distinção  
entre o que está na memória e o que chega do exterior, porque o que chega do  
exterior, pode ser novidade, e assim facilmente atrair a atenção, que mais não è que  
a consciência focada.  
A consciência, não resulta de informação integrada ou não integrada. A consciência,  
tal como a memória, resultaram de um processo evolutivo de milhões de anos. São  
uma adaptação ao ambiente, e são órgãos da mente consolidados pela evolução,  
que não devem ser confundidos com o material com que trabalham.  
A consciência é algo demasiado sofisticado para não ser uma estrutura neural  
“planeada” pela seleção natural. È um órgão espalhado pelo cérebro, que devido à  
complexidade, e para ter aceso facilitado a diferentes funções, é fracamente  
modular.  
A consciência è moldada pelas vivencias que vivemos desde o útero da mãe até ao  
presente. Está em constante transformação sobretudo pelas relações com a  
sociedade. Mas para tentarmos compreender melhor a consciência, devemos tentar  
entende o que ela é, antes de ser moldada pelo ambiente em geral, sobretudo pelo  
social. Tentar compreender a base biológica, as redes neurais que a sustentam, e  
só depois a moldagem impingida pelo ambiente. O cérebro é caracterizado por sua  
plasticidade, o que torna a consciência fisicamente maleável e socialmente mais  
maleável, dando assim uma grande flexibilidade à consciência de se adaptar, mas  
esta moldagem tem limites, e importa como è a consciência se não fosse a  
moldagem que sofre. O que há de permanente na consciência. Se tivermos um saco  
de pano, o saco pode alterar de forma com o conteúdo, mas tem o limite. A questão  
è que forma tem o saco que não depende do conteúdo? A consciência trabalha com  
informação, mas a consciência não è a informação com que trabalha.  
Alguns sistemas, quanto mais complexos são, tendencialmente, são menos  
modulares, è assim, porque a maior interconexão entre partes, aumenta a eficiência.  
Se imaginarmos um sistema absolutamente complexo, esse sistema só terá  
modularidade, naquilo que alimenta a complexidade do sistema, mas não no  
funcionamento do núcleo da complexidade do sistema.  
A modularidade atrapalhar a ligação de qualquer parte a outra qualquer parte.  
Mesmo a memória, apesar de ser muito mais simples, não è como a memória de um  
computador onde os dados ficam gravado sequencialmente em algum suporte. A  
memória humana tem vida e conexões com outras partes da mente.  
Da perceção até à memória final, a informação sofre vários processamentos que  
alteram os dados em bruto, e o mais interessante è que a memória humana pode  
guardar também conceitos não entendidos conscientemente, e lógicas do tipo,  
alguém foi mordido por um cão, quando era pequeno, e fica na memória, não o filme  
de ser mordido por um cão, mas o conceito, os cães são perigosos, e no futuro pode  
ter medo de cães sem saber porquê. Isto que acabo de dizer è de extrema  
importância para psicoterapia.  
O pensamento não è uma espécie de “homúnculo”. È um sistema automático que  
executa muitas e diversificadas funções, como por exemplo: Formação de  
conceitos, Juízo, Raciocínio, Planeamento, Resolução de problemas, Criatividade,  
Tomada de decisão, Imaginação, etc. Trabalha na busca do prazer, e fuga à dor.  
Sem os qualia, não saberia o que fazer.  
Na busca, incessante, pelo prazer, e fuga à dor, agora e no futuro, o pensamento è  
fortemente intencional. Tem sempre como único foco, melhorar a nossa existência,  
agora e no futuro. Não descansa quando estamos conscientes.  
Formação de conceitos: Tenta compreender melhor o mundo a fim de  
fortalecer o intelecto e alcançar vantagens de prazer/desprazer.  
Juízo: Julga, a fim de encontrar o mais vantajoso em termos de  
prazer/desprazer.  
Raciocínio: Procura encontrar a melhor solução que favoreça o  
prazer/desprazer.  
Planeamento: Qualquer projeto è sempre pautado, pela expectativa de futuro  
prazer/desprazer.  
Resolução de problemas: Uma fuga ao desprazer.  
Criatividade: Exercício de busca de prazer.  
Tomada de decisão: Encontrar a forma mais vantajosa em termos de  
prazer/desprazer.  
Imaginação: Podemos tentar prever o futuro e assim prepararmo-nos,  
melhorando o prazer/desprazer, ou encontrar prazer em imaginar coisas.  
A entrada de informações, que alimenta a consciência, mas que não è consciência,  
encontra a consciência já formada, e a alimenta.  
A plasticidade do cérebro leva-nos a pensar que a consciência, que é um órgão do  
cérebro, tal como a memória, pode também ter uma certa plasticidade, e adequar-se  
ao que, cada pessoa mais exige dela. Terá alguma plasticidade, mas com limites,  
porque a consciência é um órgão, geneticamente determinado da mente, mas com  
grande flexibilidade.  
Utilidade desta teoria  
Com o avançar da idade, muitos deixaram de ter novas experiências de vida, como  
por exemplo, visitas de familiares, amigos, afirmação social, etc. e vivem no  
isolamento total, na solidão absoluta. Vivem de memórias. Vivem daquilo que o  
pensamento encontra, quando passeia pela memória, e tem mais qualia.  
Na inteligência artificial, sobretudo nos robôs, por serem sistemas  
deterministas, existe o problema de que com a entrada dos mesmos dados, saíam  
rigorosamente as mesmas respostas. Mesmo input, mesmo output.  
Como os humanos são tão deterministas quanto qualquer robô, se  
estivermos confinados na solidão, acabamos a pensar sempre nas mesmas coisas  
se não houver entrada de novos dados. A pensar naquilo que na memória tem mais  
qualia positivas ou negativas.  
O aparente livre-arbítrio nos humanos, deve-se ao facto de que a cada  
momento receberem muitos dados do exterior, do interior (corpo) e da memória, e  
de tudo isto resulta, uma amálgama complexa, que cria um aparente livre-arbítrio.  
Quando novos, devemos procurar ter experiência felizes, (viajar, encontros  
amorosos, ver o mar, etc.) para ficarem na memória, e mais tarde serem  
encontradas pelo pensamento (e produzirem felicidade) na sua busca por melhorar  
a nossa vida. Também devemos esquecer os maus momentos que tivemos, porque  
já não adianta pensar neles.  
Os idosos isolados, e devido ao determinismo que faz com que o  
pensamento pense sempre nas mesmas coisas, por falta de novas vivências,  
devem procurar e viver novas experiências de vida, para terem algo novo na  
memória para ser encontrado pelo pensamento.  
Se aos idosos, confinados na solidão, forem proporcionadas novas e boas  
experiências de vida, isso faz com que o pensamento, do idoso, encontre algo de  
bom na memória, para viver, e não fique em “loop infinito” a pensar sempre nas  
mesmas situações desagradáveis do passado. As coisas más na memória devem  
ser desativadas com reestrutura de pensamento, como bem diz a Terapia Cognitivo-  
Comportamental (TCC).  
Talvez, um dia, os robôs humanoides alcancem estas capacidades superiores dos  
humanos, de terem um pensamento que esteja incansavelmente a trabalhar pela  
sua felicidade. Um pensamento vagueando pela memória, pensando e projetando o  
futuro, procurando estratégias para resolver problemas de todos os tipos.  
A inteligência Artificial e os Robôs  
Partindo do princípio, que toda a realidade è matéria, e que só a matéria existe, e a  
matéria è regida por um determinismo implacável, e por uma lógica mecanicista. Eu  
só posso conceber toda a forma de inteligência (incluindo a humana) como um  
sistema automático.  
Um termostato pode ser visto como a forma de inteligência artificial mais  
básica.  
O termostato avalia a temperatura, e se ultrapassar certo valor desliga a corrente  
elétrica, e se a temperatura baixar abaixo de certo valor, liga. Tem o poder de  
decidir de um modo útil.  
Se criarmos uma rede com vários termostatos conectados, podemos ter um  
sistema de controle da temperatura aperfeiçoando, que decida diferentes  
temperaturas de acordo com a época do ano por exemplo.  
No cérebro basta trocarmos a palavra termostato por neurónio, e tudo  
continua a ser automático e determinista.  
A complexidade do cérebro não nos deve iludir, e pensarmos que è algo mais que  
um "relógio" em termos qualitativos. O cérebro è tão automático quanto todas as  
outras coisas no universo. A ilusão de livre-arbítrio, deve-se ao grande número, e  
diversidade, de causas que provocam um acontecimento.  
Será que um dia a inteligência artificial poderá superar a humana?  
Para respondermos a esta questão devemos reparar em algo muito importante que  
diferencia a inteligência artificial da humana. Uma è criada e a outra gerada.  
A inteligência humana resultou de um processo evolutivo, por um mecanismo  
de seleção natural, e a inteligência artificial foi criada pelos homens. Mesmo que no  
futuro, a inteligência artificial seja criada por inteligência artificial, e não por  
humanos, continua a ser criada, e não produto de evolução, e è isto que faz toda a  
diferença. È isso o elemento distintivo.  
Um botão para desligar a dor  
Nós humanos, funcionamos pelo princípio do prazer. A nossa consciência está num  
constante esforço para criar condições para maximizar a felicidade, que è a soma  
de todos os prazeres, e minimizar a infelicidade, que è a soma de todos os  
desprazeres. Se dos prazeres, subtrairmos os desprazeres, obtemos o saldo, que  
pode ser positivo ou negativo e assim descobrirmos se somos felizes ou infelizes.  
Pouca gente è feliz.  
Na vida não è possível ter outro ganho, ou prejuízo, que não seja o prazer ou  
o desprazer. O prazer ou o desprazer è o único ganho ou prejuízo que podemos ter  
na vida, os outros aparentes, ganhos ou prejuízos, que podemos ter, são apenas  
meios para o prazer ou desprazer. Se nos oferecerem um carro, ficamos contentes  
por pensarmos no prazer que nos pode proporcionar, ou se nos roubarem o carro,  
ficamos descontentes pelo prazer que perdemos.  
Quando temos dores insuportáveis, podemos desejar ter um botão para  
desligar a dor.  
Se a inteligência artificial, se tornar consciente, e por ser criada e não gerada, o  
criador poderá pôr um botão para desligar a dor. Um botão, è um modo de falar, a  
dor poderá ser desligada pela consciência da máquina.  
Ser gerado, ou ser criado, ambos têm as suas vantagens e  
inconvenientes. Ser gerado, resultou de um processo evolutivo de  
milhões de anos, o que levou a um aperfeiçoamento incrivelmente  
avançado das máquinas biológicas deterministas humanas. O ser  
humano, com sua ação, está a alterar o ambiente demasiado rápido, e  
isso não permite que os organismos humanos tenham tempo de se  
adaptar, por seleção natural.  
Os possíveis robôs com consciência, pelo facto de serem criados e  
não gerados, podem facilmente ser adaptados aos novos ambientes e  
necessidades, basta mudar o software e/ou hardware.  
Talvez um dia a terra esteja tão poluída, que só os robôs possam  
viver nela. A hipótese de adaptação e sobrevivência dos robôs è muito  
maior que a dos humanos em ambientes poluídos, por não precisarem de  
oxigénio.  
Um dia teremos inveja destas criaturas, pela sua capacidade de  
adaptação ao meio.  
Por serem criados, podem ter sentidos, que os humanos não têm,  
como por exemplo, sonda, radar, infravermelho, etc. e assim terem uma  
forma de consciência muito diferente da nossa, e possivelmente mais  
adaptada.  
Talvez um dia os humanos estejam a sentir o seu fim,  
provavelmente por não conseguirem se adaptar às alterações climáticas,  
e preparem os robôs conscientes, para continuarem a habitar o planeta, e  
serão instruídos para não esquecerem o legado humano. Não  
esquecerem a cultura de seus criadores. Com o tempo estas criaturas de  
silício até poderão criar uma religião de adoração aos seus criadores  
humanos.  
Por vermos muitos filmes de ficção científica, por vezes  
interrogamo-nos: poderão, um dia, os robôs dominar os humanos?  
Isto leva-nos à questão da psicologia dos robôs, se vierem a ter  
consciência.  
Os humanos, ao longo dos milénios, desenvolveram uma psique  
adaptada à sua natureza biológica. Uma psique que emerge da sua  
biologia e tem o objetivo de responder às suas necessidades de  
sobrevivência e reprodução.  
Os robôs, criados e não gerados, não terão uma psique igual à  
humana à partida, a não ser que alguns sejam construídos com o fim de  
serem o mais humanos possíveis.  
Na prática, serão criados robôs de todos os tipos, e para todos os  
gostos. Uns serão santinhos, e outros satânicos.  
Porque os robôs quereriam dominar os humanos?  
Se conscientes, os robôs poderão construir máquinas ou outros robôs, que por  
serem criados e não gerados, podem ser fabricados, com uma consciência que  
encontra prazer em fazer os serviços mais desagradáveis para os humanos.  
Contrariamente aos humanos os robôs serão fabricados com um objetivo. Serão  
fabricados para serem como o seu criador quer que sejam.  
Os robôs fabricados com uma psique humana, certamente serão uma minoria,  
porque terão apenas interesse científico ou pouco mais.  
Existirão robôs, violentos para a guerra, robôs santos para ajudar quem precisa.  
Robôs construídos com o intuito de dizimar grupos sociais ou até mesmo  
populações inteiras, por motivos religiosos, ideológicos, etc. e robôs com uma  
psique que só encontram felicidade em ajudar os humanos.  
Porque os robôs poderão querer dominar os humanos? Por precisarem dos  
humanos para, por exemplo, produzirem baterias, que os robôs não conseguem  
produzir? Por instintos de domínios, encontrando prazer em dominar? Por espaço  
vital para povoarem a terra limitada, etc.  
Se os robôs vierem a ter consciência, como a entendemos hoje, a tecnologia estará  
tão evoluída que não serão necessários humanos para produzir baterias ao outro  
produto qualquer para as criaturas robóticas.  
Os humanos têm instintos de domínio, prazer em dominar, mesmo que não ganhem  
nada com isso, ou até percam, isso porque no reino animal, de que os humanos  
fazem parte, os machos têm instintos naturais de domínio para melhor poderem  
defender o território e as fêmeas que são suas, e instintos violentos de forçar a  
reprodução.  
Porque os humanos ou outros robôs criariam robôs com esses instintos, iguais aos  
humanos, que resultaram de evolução natural, e com o objetivo de adaptar os  
homens ao ambiente natural e garantir a sobrevivência da espécie?  
A ideia, que nos vem à mente, e faz sentido, è que estas criaturas podem querer  
espaço para existirem, e o espaço na terra è limitado. Tudo depende da consciência  
que estas criatura vierem a ter. Ela serão como os criadores as criarem, e a ideia de  
que poderão ser criadas com instintos de domínio com o objetivo de dominar a terra,  
não leva em conta que serão produzidos robôs de muitos tipos diferentes, e não  
apenas criaturas satânicas.  
Podemos esperar que sejam criados, muitos mais robôs bons, que maus, e que  
podem melhorar a felicidade dos humanos, que robôs destrutivos. Os robôs bons  
terão uma psique que faz com que não tenham nenhum interesse em fazer mal aos  
humanos, e, nem que se encontrem em situação de falta de espaço para viver,  
tenham interesse em ser violentos com os humanos. As fêmeas polvo depois da  
nascença dos filhos, ficam a cuidar dos filhos, sem comer, até morrerem de  
exaustão.  
Para os robôs atingirem uma consciência ao nível dos humanos, terão que ter aquilo  
que de mais elevado tem a consciência dos humanos, um pensamento que esteja  
constantemente a avaliar os dados que chegam do exterior, do corpo, e da memória  
e depois de selecionar o mais importante, usando como critério o prazer/desprazer  
que pode proporcionar agora ou mais tarde, encontrar a melhor solução para  
otimizar a felicidade. Toda a experiência subjetiva è boa ou má. Ser neutra seria  
como equilibrar uma moeda verticalmente sobre uma mesa. Os qualia são a força  
motora da mente. È para isso que servem.  
Poderá a inteligência artificial roubar-nos os empregos?  
A questão, se a inteligência artificial poderá roubar-nos os empregos tira a paz de  
espírito a muita gente, por recearem ficar sem a fonte de sustento.  
Trata-se de um choque económico, neste caso um choque económico tecnológico.  
Este tipo de fenómenos não è novo. Tem acontecido ao longo da história da  
humanidade. Aconteceu com o surgimento da máquina a vapor, da eletricidade, dos  
computadores, etc. A diferença è que agora as coisas tornaram-se muito rápidas e a  
capacidade de adaptação tem dificuldade em acompanhar as transformações  
tecnológicas.  
Se a inteligência artificial nos tirar os empregos, isso será a melhor coisa que nos  
pode acontecer. Poderíamos ter mais tempo para nós. Seriamos mais livres.  
Encontraríamos ocupações prazerosas.  
O problema de perdermos os empregos, só pode ter impacto no imediato.  
Rapidamente haverá uma redistribuição das horas de trabalho necessárias por  
todos. Passamos a trabalhar menos horas e a ganhar mais, por termos as criaturas  
escravizadas a trabalhar para nós.  
Novas profissões serão criadas, e velhas profissões destruídas, mas a abundância  
de riqueza faz com que não haja grande vontade de trabalhar. O estado poderá  
baixar os subsídios, e aumentar os ordenados, na medida do necessário, para que  
haja mais quem trabalhe. Se houver excesso de trabalhadores os subsídios  
aumentam, e os ordenados baixam, e muitos deixam de trabalhar.  
Ética  
Se os robôs vierem a ter consciência, e como tal, a terem experiências subjetivas  
(qualia), a tornarem-se seres sencientes, põe-se a questão se devem ter direitos  
éticos e políticos?  
Ainda antes de os robôs chegarem a ter consciência, certamente muitos humanos  
podem criar sentimentos por essas criaturas, sobretudo se forem de companhia e  
parecerem muito humanas, e demonstrem sentimentos sinceros, mesmo não os  
sentindo. Nós ao dialogarmos com um Chatbot, mesmo sabendo que do lado de lá  
está apenas uma máquina silício, temos um certo sentimento de estarmos a falar  
com um humano.  
Uma criança, mesmo sabendo que uma boneca mais não è que um bocado de  
pano, não perde a afetividade que tem para com a boneca.  
Dentro do que acabo de dizer, ofender um robô, com quem alguém tem uma relação  
afetiva, deverá ser penalizado, não pelo robô, mas pela pessoa que tenha uma  
relação afetiva com o robô.  
Se os robôs conscientes, cometerem algum crime, a responsabilidade deve ser  
investigada e atribuída a quem teve mais responsabilidade, ou distribuir  
responsabilidades. O fabricante de hardware, o programador, ou o próprio robô, que  
cometeu o crime deve ser julgado na proporção da sua culpa.  
Se o robô que cometeu um crime, por ter tido más experiências de vida, que  
prejudicaram seus comportamentos, (talvez por ser vítima de bullying pelos  
humanos), o tribunal deve levar em conta este trauma.  
________________________________________________________